3 de novembro de 2009

Desistir, quem sabe?

Se me fosse exigido que desistisse da vida, eu me trancaria em um quartinho na beira da praia. Nunca mais sairia de lá. Mas em troca também faria uma exigência: que o quarto tivesse uma grande janela que eu pudesse abrir todas as manhãs, como ensinava minha mãe: “minha filha, quando amanhece, abrem-se portas e janelas”. Ensinamento para toda vida. De que adianta ter um quarto, se nele não se pode ter janelas? De que adianta ter janelas, se não se pode abri-las? De que adianta ter vida, se não se pode vivê-la?

Mas se me fosse exigido que desistisse da vida, em troca eu exigiria um quarto na beira da praia, com uma enorme janela aberta de frente para o mar. Através dessa janela eu continuaria vendo a vida, mesmo que não pudesse mais vivê-la. Às vezes a gente precisa reconhecer que as coisas não foram feitas para serem nossas. É pretensão demais querer que tudo que você deseja se realize, que tudo que você quer para si seja realmente seu. Ninguém nesse mundo consegue a realização completa. O ser humano é uma falta. Ainda assim, é bom ter as coisas que a gente deseja por perto, para ter a certeza de que elas existem, mesmo que não nos pertençam. Para não se entregar completamente à fuga e à desculpa das ilusões.

A duras penas atingi esse desprendimento. Não exijo que as coisas sejam minhas não, exijo apenas que eu possa admirá-las. Se não puder mergulhar no mar, que pelo menos possa ver o balançar de suas ondas. Se não posso me queimar de sol, que ao menos me sejam concedidos olhos capazes de sentir sua claridade. E abençoadas sejam todas as janelas que se abrem diante de nós para nos expor à realidade da vida, ainda que seja uma realidade distante e inacessível.

Boazinha demais, condescendente demais, passiva demais? Não. Tenho outras exigências! E nossas exigências são justamente nossas mais puras maldades, como sempre exigir um preço que o outro não pode pagar. Quase um assaltante de mão armada, pronto para disparar a arma caso não seja atendido. Só os criminosos sobrevivem nessas eras.

Pois que, nessas condições, indispensável se faria uma rede. Daquelas grandes, com nome bordado na varanda e punhos feitos de cordões coloridos e resistentes. O que não poderia faltar também era uma música tocando ininterruptamente no vão daquele quarto, ajudando a me embalar e a me adormecer. Anestesiar?

Porque não somos tão autossuficientes assim. A solidão reclama consolo e companhia. Escapatórias. Precisamos de algo que nos alente, que alivie nossa alma insatisfeita e incompleta, que nos faça ignorar a falta. E a música está ali, senhora sem muitas exigências, se entregando ebriamente às almas carentes e desconsoladas. Ela não pertence a ninguém. Ela se presta a todos. Ela não se faz de rogada. Nem para mim, a mais desafinada entre todas as vozes desafinadas.

Mas no peito dos desafinados também bate um coração. E no compasso desse coração, toca uma música secreta que procura nas demais se reconhecer, com as quais procura fazer par. E é promíscua demais essa relação. Milhares de acordes e todos os encontros inevitáveis, as atrações fatais. E esses encontros fazem de mim uma dependente, uma viciada. Mas quem se importa? Quando tudo já está perdido, quando a vida não nos pertence mais, a alma persiste e, sem outra escolha possível, se entrega.

Se me fosse exigido que desistisse da vida, se não houvesse outro jeito, eu até desistiria, mas em troca eu pediria um quarto, uma janela, uma rede e toda música que houvesse nesse mundo. Mas o problema é que estou viva, muito viva. A solução. Meu corpo pede água e sol, encontros e desencontros. Areia da praia, cimento de escadaria, deslize de rampas, sujeira de barro e cansaço de asfalto. Já que é assim, dou um salto da rede, atravesso a janela do quarto e vou para o mundo, procurar vida em cada canto secreto desta cidade, cheia de exigências, mas ausente de todas elas.

O vivo afirma firme afirmativo: o que mais vale a pena é estar vivo! Lenine

Saudações,
Clara.

Postado às 12:09

2 Comments

Blogger Debora disse...

Simplesmente perfeito, Clarinhaaa! =)

3 de novembro de 2009 15:01  

Blogger Maciel Queiroz disse...

Muito bacana o texto! Além de bem escrito, muito poético e tocante!
Parabéns!

6 de novembro de 2009 02:20  

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