15 de novembro de 2009
A costureirinha sem pátria
Dizem que escrever é costurar palavras. Amar deve ser costurar corpos, falou a costureirinha. Agulhas, tesouras, máquinas, tecidos, veias, linhas e sangues. Mãos que trabalham incansáveis. O que rasga é carne, ponto sem nó. O que enlinha é alma, nó cego de ah, se eu fosse marinheiro. Bordados, remendos, moldes. Os dedos da moça sobre o tear, desenhando delicadamente sonhos de enxoval. As mãos cansadas da esposa fazendo reparos na calça velha do marido, já surrada por tantos dias de trabalho. A tesoura da mulher que, sob encomenda dos desejos de outro, recorta as formas que se adaptarão a contornos sem medidas nem simetria. Costureiras, como perfurar corpos, entrelaçar versos, enovelar almas?, perguntou a costureirinha, sem desviar os olhos do retrós de linha cinza escuro que, naquele momento, escorregava do seu colo, a ponta do fio ainda entremeada nas suas mãos. Que mapas tudo isso formará, formaria? Para onde me leva, de onde me traz? A costureirinha não tinha pátria. Um labirinto de pontos riscados impulsivamente sobre a pele era seu atlas de localização, a bússola que lhe ajudava a navegar, o alinhavo por onde seguir com a ponta da agulha herdada há tantos anos da avó da avó da sua avó. Caminhos percorridos, casa para se buscar, arremate onde se perder. Três retalhos para o fio de Ariana, descobriu enfim a costureirinha:
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavras, paixão e veemência Hilda Hilst
Saudações,
Clara.
Postado às 10:55
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